Eu te achei no tempo
Como quando você está passando e vê um relógio parado. Um relógio sem horas para mostrar, com os ponteiros empoeirados, inertes.
Eu era a hora. Ali, parada e morta.
Tu eras o passante e tu buscavas algo: O tempo.
Tu me achou numa parede.
Na realidade tu não pensava muito. Teus pulsos vazios condenavam alguém que queria viver, mas que em um momento ou outro, buscava um relógio qualquer, que lhe fosse um sinal, um guia.
Para saber que não estava perdido.
O relógio para nada mais servia. O vidro trincado e os números tortos.
Era imprestável e poderia ser jogado fora. Mas ali tinha tempo, o que faltava era a vida.
Tu limpou os ponteiros, colocou os números no lugar, cuidou do vidro trincado. Deu vida.
Eu te dei tempo.
E calma e intervalo para os Sonhos.
Tu me deu os novos sonhos.
Eu te dei os quartos das horas, os terços das rezas, o meio dos meus braços.
Tu me deu as madrugadas e com o meu tempo eu as fiz passarem devagar.
Eu te achei no tempo. Parado, inerte, olhando pra mim. Perdido.
Eu fiz você se achar.
Eu te achei no tempo.